
O que dizer sobre a importância de contar histórias e do relevante papel dos contadores de histórias?
A meu ver a própria forma como Nancy Mello escreve no livro “A arte de Contar histórias” é já por si um “contar de histórias”.
“Você, como todo ser humano, é um contador inato de histórias. Você nasceu com um estoque inesgotável de temas pessoais e universais. É importante abrir-se para receber essa vasta riqueza imaginativa que vive dentro de você. Construa uma fogueira em seu interior e deixe que ela se transforme em um círculo de proteção. Dentro dela, a sabedoria do seu coração poderá arder e inflamar.”
– Nancy Mello
Misturando dicas, estratégias, de algo que é concreto e prático – e que no caso, por exemplo, de um professor ou bibliotecário, poderá ter objetivos bem concretos, seja no plano curricular, seja extracurricular, mas com vista à formação e ao desenvolvimento do processo ensino-aprendizagem – em simultâneo com referências, que nos lembram o sagrado, o ancestral, a antiga tradição oral de contar histórias em volta de uma fogueira, e alusões a um certo esoterismo (quando por exemplo fala de energias e mantras). Posso dizer com isto que há uma explícita evocação da imaginação e, para mim, o que mais me ficou do que li desta autora, foi precisamente a ideia de que um bom contador de histórias tem implicada uma enorme liberdade no reino da imaginação.

“Contar histórias é acender uma fogueira em seu coração para que a sabedoria e a imaginação possam transformar sua vida.”
– Nancy Mello

Uma história para contadores de histórias:
Para qualquer educador, professor e, mais especificamente, professor bibliotecário, contar histórias é um meio, um instrumento pedagógico, que permitirá entre várias possibilidades desenvolver a literacia da leitura, pois é um estímulo que vai levar à motivação dos leitores em prol de lhes cativar a atenção, lhes despertar a curiosidade, seja em relação à história que ouvem contar, como em busca de outras histórias. Permite também desenvolver a inteligência emocional, competências de leitura e de escrita, bem como o espírito crítico, já para não falar dos conteúdos curriculares que possam encontrar-se relacionados coma história contada.
Nancy Mello fala no “poder da narração de histórias” (p. 30).
Procurando traduzir o “poder” em algo prático podemos dizer, para que o contador de histórias seja eficaz, que é necessário:
– conhecer bem a historia;
– envolver-se com as emoções da história/gerar emoções;
– ser criativo;
– instigar a curiosidade da criança.
De facto a autora, revela que é necessário “incorporar”, ou seja, sentir, contar com emoções. No entanto, talvez o mais difícil seja a empatia emocional. Esta pode estar nas palavras mais também no tom de voz, nos gestos ou até simplesmente em imagens:
Muitas vezes é importante que o contador de histórias não seja só “um”, mas “vários”. E a este propósito o texto encomendado a Gonçalo M. Tavares, pela Pé de Vento, transmite-nos essa ideia. Como acontece noutros textos do autor, estamos perante duas vozes que não só se completam, como são em si próprias o espelho uma da outra. Espelho esse que, como imagem invertida, vai introduzindo comentários, por vezes irónicos, no interior da narração. Estamos perante uma só personagem que se desdobra e ousa dividir-se em duas vozes, duas maneiras de ver, duas maneiras alternativas de pensar…
Ainda a referir que o contador de histórias deve também criar novos meios de trabalhar a narrativa, a arte de contar, não só no sentido da criatividade, mas no sentido do prazer, ou seja, deve gerar uma dinâmica de novidade e entusiasmo. Trazendo recursos que façam com que o momento da narração seja divertido e de aprendizagem, contribuindo com um ambiente propício para a sua realização, motivando as crianças. Os recursos podem ser vários: contos populares, trava-línguas, brincadeiras com palavras, histórias cantadas, às vezes kamishibai ou tapetes narrativos, livros ou simplesmente a tradição oral mundial, chapéus, máscaras, malas de “tesouros”, varinhas mágicas, etc.
Vejamos aqui os contos da “Aqui há Gato”, onde os próprios gatos vão estando presentes:
“Era uma vez…”
Um pouco de mim…
Em 2008 tive a oportunidade de ler “Histórias para contar consigo”. De Margarida Fonseca Santos e Rita Vilela, e para mim foi, e é, um fascínio a forma como as autoras encadearam histórias, umas com as outras, dando ao próprio leitor a possibilidade de ir à procura delas e as correlacionar. Trata-se de um livro que, mais do que sobre contar histórias, é sobre a aprendizagem que podemos fazer em relação ao autoconhecimento, ou seja, contar/ouvir histórias ajuda a crescer. Entretanto em 2010 as mesmas autoras editaram novo livro “Brincar com coisas sérias”, novamente um livro que funciona como um jogo e que proporciona tanto momentos divertidos como de reflexão. Ambos os livros podem funcionar numa leitura mais individual como numa leitura de grupo.
“Como sabe, o efeito da metáfora sobre o cérebro humano tem duas vertentes: a parte consciente entretém-se com o enredo, e a parte inconsciente retira da história tudo aquilo que lhe faz falta. Este fenómeno, tão bem explorado por Milton Erickson, é de grande valor terapêutico, visto que quem recebe a metáfora sente prazer em ouvi-la e não cria resistência ao seu conteúdo, este não o assusta. Trata-se de uma história passada com outras pessoas, objetos, animais, em países longínquos, às vezes até fora deste planeta”. (SANTOS e VILELA, 2008, p. 181)

Em 2015 acontece “Um Porto de Contos- Encontro Internacional de Narração Oral”, tendo eu já conhecido anteriormente a Clara Haddad, através de algumas sessões de leituras na livraria “salta folhinhas” no Porto, aonde ia depois de ir buscar o meu filho ao infantário. Eu não era muito fascinada com a Clara a contar histórias, mas o meu crianço gostava.
Nessa mesma altura ainda acabei por explorar um pouco mais a área e fiquei a conhecer o festival “Palavras Andarilhas” e através deles alguns dos seus contadores de histórias, como Carlos Marques e António Fontinha.
E para terminar, sem esquecer o princípio dos princípios: um dos primeiros pedidos que a criança de idade semiótica faz ao seu círculo, familiar ou educacional, é a expressão quase universal: “Conta-me uma história”. E acontece que desde a noite dos tempos, os homens contam. Sem recorrer à escrita, mas transmitindo de boca em boca como o aedo helénico, histórias cheias de aventuras, de personagens simples e de coisas maravilhosas. (G. Jean, citado por Traça, 1992, p. 7)
Portanto, contar histórias e ouvir histórias são atividades inerentes à condição social do ser humano.
MANIFESTO DO CONTADOR DE HISTÓRIAS
O contador de histórias cria imagens no ar materializando o verbo, transformando-se ele próprio nesta matéria fluida que é a palavra.
O contador de histórias empresta seu corpo, sua voz e seus afetos ao texto que ele narra, e o texto deixa de ser signo para se tornar significado.
O contador de histórias nos faz sonhar porque ele consegue parar o tempo nos apresentando um outro tempo.
O contador de histórias, como um mágico, faz aparecer o inexistente, e nos convence que aquilo existe.
O contador de histórias atua muito próximo da essência, e essência vem a ser tudo aquilo que não se aprende, aquilo que é por si só.
Contar histórias é uma arte, uma arte rara, pois sua matéria-prima é o imaterial, e o contador de histórias um artista que tece os fios invisíveis desta teia que é o contar. A arte de contar histórias traz o contorno, a forma.
Contar histórias é uma arte porque traz significações ao propor um diálogo entre as diferentes dimensões do
ser.
Contar uma história expressa e corporifica o simbólico, tornando-se a mais pura expressão do ser.
(Busatto, 2011, p. 9-10)
Bibliografia:
BUSATTO, Cléo. Contar e encantar: pequenos segredos da narrativa. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2003.
EGAN, K (1994). O uso da narrativa como técnica de ensino. Lisboa: Publicações Dom Quixote.
MELLON, Nancy (1992). A arte de Contar histórias, Editora Rocco.
SANTOS, Margarida Fonseca e VILELA, Rita (2008). Histórias para contar consigo, Alfragide: Oficina do Livro.
SANTOS, Margarida Fonseca e VILELA, Rita (2010). Brincar com coisas sérias, Alfragide: Oficina do Livro.
TRAÇA, M. E. (1992). O fio da memória – Do conto popular ao conto para crianças. Porto: Porto Editora.
Outros links:
Documentário de MARTINS, Amílcar (autor), ANTUNES, Elisa (realizadora) e RIBEIRO, Teresa (tecnóloga). (2008). Arte e Educação: A Magia da Palavra. Lisboa: Universidade Aberta. DVD 40′ 01”
Notícia RTP 20 Novembro 2005
https://www.rtp.pt/noticias/cultura/contar-historias-aproxima-geracoes-e-desenvolve-inteligencia-emocional_n155482

Published: Jun 6, 2021
Latest Revision: Jun 6, 2021
Ourboox Unique Identifier: OB-1166491
Copyright © 2021